domingo, 27 de março de 2011

O amor e a loucura

Havia um tempo, em que as virtudes e os defeitos conviviam normalmente. Os sentimentos todos viviam juntos. Ficavam passeando: a tristeza e a alegria, o desespero e a calma, a maldade e a generosidade, a verdade e a mentira, o desalento e a esperança, enfim, todos os contrários e os iguais.

Então a alegria apareceu e convidou todo o mundo para brincar. O aborrecimento disse que não, porque estava muito chateado; a tristeza disse que não, também, pois estava desanimada, e a alegria ia insistindo. “Vamos brincar! Vamos brincar!”...

Até que a loucura apareceu, e gritando como uma louca, disse: “QUERO BRINCAR! Eu vou brincar sim! Eu escondo meu rosto, conto até cem, e vou encontrar todos vocês em seus esconderijos! EU QUERO BRINCAR!”
E começou a contar como uma louca, enquanto todos iam se esconder: “47, 12, 64, 31, 7, 19, 22... Todos saíram correndo, procurando seus esconderijos, e a loucura contava: “94, 5, 58, 70, 1, 17, 44... ”dúvida não conseguia escolher entre a moita e a pedra. Ficava entre uma e outra, pra lá e pra cá, pensando: “Vou me esconder atrás da moita. Não. Atrás da pedra... Não, da moita ”A vaidade, quando ia atravessar o lago para passar para o outro lado, parou para se mirar em suas águas, e ficou se apreciando. Distraída... A mentira gritou para a loucura ouvir: “Olha, loucura, eu vou me esconder atrás dessa árvore, na margem do lado de CÁ do rio...” E se escondeu na outra margem, do lado de lá do rio. A paixão foi procurar um vulcão para se esconder, e enquanto procurava, foi se machucando toda, foi caindo, foi se arranhando, e já chegou no esconderijo pingando sangue. O amor, com medo de ser encontrado pela loucura, quis se esconder muito bem, e cavou um buraco ao redor de um belo roseiral, fazendo um túnel por debaixo de suas raízes, onde ele ainda colocou pedras para melhor se proteger.

 Até que a loucura finalizou a contagem: “31, 14, 20, 63, 99, 13, 100! ”E saiu desesperada procurando todo o mundo A primeira a ser encontrada foi a dúvida que ficou no meio do caminho, sem se decidir. Logo depois a vaidade, que demorou muito se admirando e não teve tempo de encontrar um bom esconderijo. Logo depois, achou a preguiça e a mentira. Não demorou muito, encontrou a maldade e seguiu os rastros de sangue da paixão, até tirá-la do vulcão. E assim foi descobrindo um a um, em seus esconderijos. Mas ela não se deu conta de que não tinha encontrado o amor.

Então, a traição disse: “Loucura, falta você encontrar o amor. Ele está escondido debaixo do roseiral ”A loucura saiu correndo cavando como uma louca, jogando as rosas para o alto, arrancando suas raízes, desesperada. Mas não conseguia chegar até o amor, por causa das pedras. Então a maldade entregou à loucura uma lança ponte aguda e disse: “Tome, loucura, enfie a lança por entre as pedras, até alcançar o amor”.

E a loucura, fincou 5 vezes a lança, com força e violência, até que ouviu um grito: “Ah, loucura, o que você fez comigo!? “E saindo de dentro da terra, veio o amor, com as mãos cobrindo o rosto, repetindo: “Loucura, o que você fez comigo? ”O amor estava coberto de sangue, com os olhos furados pela lança. Os dois olhos. O amor chorava cego, de dor. A loucura ficou apavorada. Ajoelhou-se diante do amor, pedindo-lhe perdão e dizendo que não queria feri-lo tanto, que não queria ter-lhe feito tanto mal. Ela estava só brincando.E agora, amor, o que eu faço? Me perdoa!

O amor, que perdoa tudo, passou as mãos sobre a cabeça da loucura e disse: “Loucura, mesmo sem ter sido por mal, você me cegou. Eu agora já não posso seguir sozinho. Se você quer me ajudar, vai ter que me guiar.”
E muito tempo se passou. E até hoje é assim: o amor vai seguindo cego, pelo mundo, guiado pelas mãos da loucura.

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